Mulher, indígena, maranhense, formada como técnica de enfermagem, bacharel em letras/literatura, pós-graduada em educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e militante dos direitos dos povos indígenas. Essa é a líder indígena Sônia Bone Guajajara, ex-aluna da Fundação Educacional Caio Martins (FUCAM) que está fazendo história por ser a primeira mulher indígena na história do Brasil a se pré-candidatar ao posto de vice-presidente da República.

OFICIAL

Nascida e criada na terra indígena de Araribóia, no município de Amarante (MA), descendente do povo Guajajara, membro de uma família humilde e que não teve acesso à escolaridade, Sônia se mudou para o Centro Educacional de Esmeraldas (CEE) aos 15 anos, em busca de novos horizontes e de ampliar os conhecimentos. Na época em que chegou em Esmeraldas, durante a década de 90, a FUCAM também estava recebendo diversos indígenas do norte do país.

Ao conviver com os jovens que estudavam na FUCAM, Sônia Guajajara enfrentou alguns preconceitos devido à falta de informação sobre a vida dos povos indígenas. Para fazer com que os alunos compreendessem a sua cultura, ela criou uma grêmio estudantil e reunia os alunos para organizarem peças teatrais encenando sobre o que acontecia em sua aldeia, atos políticos e pinturas corporais para apresentar na área externa do Centro Educacional. Com o decorrer dos anos, outros indígenas também entraram para a FUCAM e seguiram os caminhos que Sônia Guajajara havia traçado dentro no CEE - o de apresentar e se orgulhar da própria cultura.

Foi nesse mesmo grêmio estudantil que Sônia deu seus primeiros passos como ativista da luta pelo direito dos povos indígenas do país. Ela relembra do convívio com os amigos quando era adolescente, do Coronel Manuel de Almeida e de como a Fundação foi importante para o seu processo de formação. “Lá foi o primeiro lugar que eu fiquei depois que saí do meu estado, foi onde eu tive contato com muitas maravilhosas e com muita diversidade. Era uma área que me identifiquei muito. Também gostava quando contavam sobre a história do Coronel, quando os professores falavam da história dele, eles colocavam como um exemplo de luta, pelo fato dele ser o fundador da escola. Me lembro que algumas vezes ele passava por lá, sempre sério, mas uma pessoa muito boa,” contou a líder indígena.

Sônia Guajajara em ato político para lançar a sua pré-candidatura a vice-presidente do Brasil

Ao assumir o papel de apresentar para o mundo a cultura e as necessidades dos povos indígenas, Sônia participou das Conferências do Clima da ONU, se tornou integrante da Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima), esteve a frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), do Serviço Florestal Brasileiro, foi vice-presidente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia, líder da Associação dos Povos Indígenas do Brasil, participou da Conferência Nacional de Política Indigenista e atualmente está no processo de pré-candidatura à vice-presidente da república. Sônia Guajajara também ganhou visibilidade ao ser convidada pela cantora Alicia Keys para subir no palco do Rock in Rio de 2017 e se manifestar por causas ambientais e políticas em defesa da Amazônia. A militante indígena protestou em prol da demarcação de terras na Amazônia.

Hoje, aos 44 anos, ela continua lutando, suando, chorando e sorrindo pelo seu povo e vai mais além: é a primeira mulher indígena a chegar na pré-candidatura a "co-presidente do Brasil", como ela mesmo se refere, ao lado do pré-candidato a presidente Gulherme Boulous, membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

No dia 01 de maio será comemorado os 70 anos da FUCAM, dia em que é tradicionalmente realizado do Dia do Ex-aluno no Centro Educacional de Esmeraldas, em Esmeraldas (MG). Será um momento para conhecer e relembrar as histórias de vida e conquistas dos mais de 80 mil alunos que estudaram na instituição, como a trajetória da líder indígena Sônia Guajajara.

Para Gildázio Santos, vice-presidente da Fundação, ter ex-alunos como Sônia Guajajara é um orgulho para instituição.  "Um dos objetivos da FUCAM, ao longo da história, era também formar lideranças. A gente considera que a Fundação teve um papel importante também na própria liderança que a Sônia se tornou, assim como muitos outros alunos,” relata Gildázio Santos.

Sorridente e determinada, ela conta que o vínculo entre ela, a política e a Fundação Educacional Caio Martins (FUCAM) será levado eternamente em sua caminhada “Eu nasci política. Desde menina eu estou envolvida com alguma coisa, seja na minha aldeia ou no meu município eu participava muito de várias discussões. E na FUCAM eu levava os conflitos que existiam nas terras indígenas, a luta que a gente travava para proteger o território,” concluiu Sônia Guajajara.

 

Texto: Gabi Coelho
Fotos: Gabi Coelho