Mulher, mãe de 5 filhos, nascida e criada no bairro periférico Cabana do Pai Tomás, na Zona Oeste de Belo Horizonte, Ercília Faustina de Oliveira, de 58 anos é conhecida como “Tia Cílinha” pelos ex-alunos e alunos da Fundação Educacional Caio Martins (FUCAM). Amada e considerada como a segunda mãe de vários “Caiomartinianos”, a história de vida dessa mineira é repleta de garra, força e exemplo de como vencer, com alegria e otimismo, as dificuldades e obstáculos que a vida oferece.

Para tirar seus filhos da margem da violência que cercava os moradores da periferia onde morava, em 2003, Ercília decide buscar uma nova vida e conquista a oportunidade de trabalho como educadora no Centro Educacional de Esmeraldas (CEE). Capaz de transformar o dia a dia em sala da aula em um ambiente acolhedor, Cilinha sempre teve certa facilidade de se comunicar com os jovens, utilizando uma metodologia simples, prática e objetiva para trabalhar na educação. Relação ultrapassava o papel entre educadora e educando, ela criou um vínculo familiar com todos que passavam pelo Centro Educacional na época em que a FUCAM trabalhava com o “Sistema de Lares” e recebia crianças e adolescentes do Brasil todo, mas principalmente do Norte de Minas Gerais, que viviam em situação de vulnerabilidade social.

Perfeccionista, criativa e com muita disposição, tia Cílinha trabalhava com uma metodologia simples e divertida para educar os alunos. Os grafites nas paredes, as garrafas pets para armazenar água da chuva para molhar as plantas e outros trabalhos artesanais que ela desenvolvia com os alunos ainda estão na Fazenda Paulista, em Esmeraldas, local em que a educadora atuou por muitos anos. Ao entrar no lar em que os jovens viviam, ela se recorda de várias situações que ocorreram nos cômodos da casa. A cozinha, que era o ambiente em que todos se reuniam para ficar mais próximos dela, os armários que as roupas ficavam guardadas, o quintal em que eles se reuniam para bater um papo e o fogão a lenha na área externa do lar estão intactos, do jeito que tia Cílinha deixou quando eles saíram da Fazenda Paulista.

Em 2014, após a perda de sua filha Kenia de Oliveira, que foi vítima de um crime passional, tia Cílinha buscou forças nos jovens que moravam no Centro Educacional para seguir em frente e poder cuidar das duas netas que perderam a mãe. Famosa entre os alunos por ter um coração gigante, nem mesmo uma tragédia foi capaz de mudar a mulher alegre, do sorriso largo e do abraço apertado que tia Cílinha tem. Guerreira, que muitas vezes chorou escondido dos alunos para poupar todos eles de seu sofrimento após a morte da filha, ela ainda tinha tempo para educar os jovens, ensinar, cuidar da família e dos inúmeros amigos que a cercavam.

Após a Fundação passar pelo processo de reordenamento em 2015, mudando seu sistema de atendimento de Lares para os Eixos Educação, Trabalho, Cultura e Assistência Social, expandindo assim seu público atendido, tia Cílinha se manteve como funcionária da FUCAM e desde então ela atua na função de Serviços Gerais no Centro Educacional de Esmeraldas.

 Com a satisfação de ter feito um bom trabalho ao longo desses anos dentro da FUCAM, tia Cílinha conta que ela aprendeu muito com os alunos e se orgulha quando reencontra com alguns e se depara com jovens que seguiram o caminho dos estudos, conseguiram entrar para o mercado de trabalho e estão felizes realizando seus sonhos. Para ela, essa é a melhor gratidão que uma educadora pode ter. Ao idealizar um futuro para a Fundação Educacional Caio Martins, ela conta “Foram várias situações boas aqui dentro. Eu quero ver a FUCAM crescendo, quero que tudo que o Coronel Manoel José de Almeida construiu se fortaleça cada vez mais. A gente, que ficou aqui, tem que inovar sempre, para que a FUCAM continue com a sua função social.”

Sempre sorrindo, tia Cílinha lembra de uma situação que vivenciou em um dos acompanhamentos que ela fez ao psicólogo. “A psicóloga me deu um papel com o desenho de um coração para colocar o nome de todos que eu gostava, eu fui colocando tanta gente que não cabia mais. Lógico que o nome da minha Kenia estava lá, ela sempre vai estar dentro de mim. Todos vão estar. Eu amo muita gente.”

Texto: Gabi Coelho
Fotos: Gabi Coelho