Um momento importante na história da Fundação Educacional Caio Martins se deu em uma data simbólica, dia em que Márcia de Sousa Almeida, fundadora da instituição ao lado do Coronel Manoel José de Almeida, completaria 101 anos de vida. Foi em 28 de novembro de 2018, quarta-feira, que a família Almeida realizou a doação de todo acervo que registra a atuação parlamentar de Coronel em Brasília e sua companheira Márcia e da trajetória das Escolas Caio Martins em Minas Gerais ao Arquivo Público Mineiro.


Ao realizar esse ato, filhos e netos que fazem parte Família Almeida deram um grande passo a favor da democratização das informações, propondo o fomento a pesquisa e ao conhecimento sobre a educação em Minas Gerais desde a década de 50, até os dias de hoje. Nada mais adequado e pertinente do que entregar esse material de grande valor histórico e afetivo da família ao Acervo Público, instituição estadual criada em 1885 em Ouro Preto, que tem como competência guardar, preservar e dar acesso às documentações tanto do poder executivo como documentos privados de interesse público-social.

Organizado por Rita Heloisa de Almeida, filha caçula do casal, doutora em antropologia social, que atuou com documentos históricos coloniais em Portugal e Rio de Janeiro, além de trabalhar no arquivo público da Fundação Nacional do Índio (Funai), a documentação recebeu a sistematização no modelo da biblioteconomia. Rita se ocupou nos documentos sobre as Escolas Caio Martins e a família. Um trabalho que começou em 2012 quando ela resolveu construir a biografia do seu pai, Coronel Almeida. “A medida em que eu ia achando o material no escritório de minha mãe, Márcia de Sousa Almeida, constatei uma preocupação dela em guardar tudo o que liam a respeito e escreviam na forma de projetos, cartas e, mais adiante, em discursos. Percebi que antes de escrever uma biografia, deveria selecionar trabalhos relevantes feitos por Manoel de Almeida ou pelo casal, porque era um material que, por si só, testemunhava os sentimentos e as reflexões que foram fazendo no decorrer de suas vidas dedicadas ao trabalho com a criança pobre”, explica Rita.

Nesse período de pesquisas, a filha do casal percebeu que a sensibilização do pai com a educação foi surgindo de forma expotânea e inevitável. “O educador foi nascendo dentro dele ao ver a criança pobre e abandonada como resultado da miséria e marginalização dos pais. O político veio mais tarde como necessidade de um porta-voz de um assunto que precisava chegar a ser do interesse central dos governos estaduais e federal”, completa.

Já a documentação de Brasília diz respeito ao trabalho do Coronel Almeida no legislativo, totalizando 50 caixas-arquivo do Manoel José de Almeida e 7 caixas-arquivo da Márcia de Sousa Almeida. Organizado pelo arquivista do Museu da Educação de Brasília, Raimundo Mendes, que junto com a sua estagiária Juliana Carvalho, trabalhou na classificação do acervo de acordo com a Nobrade, regras nacionais de organização que se adequam as exigências do Arquivo Público Mineiro.


Segundo doutora em educação e pesquisadora associada ao Museu da Educação de Brasília, Maria Paula Taunay, que também é neta do casal e acompanhou a organização do acervo, o material apresenta um conteúdo muito importante não só para a história do Brasil, mas também traz um registro de atuação do Coronel no legislativo durante das décadas de 50, 60 e 70. Nele é possível ver o trabalho feito pelo seu avô em defesa dlo norte de Minas Gerais. “Eu fiquei muito impactada pelo fato de que o conteúdo arquivístico mostra uma realidade que a gente ainda não parou para estudar, que é uma realidade de muita violência. Uma realidade de muito abandono. Ele, como deputado, era convidado a arbitrar em situações muito graves. Tem também toda essa parte material do trabalho dele a favor da Escola Caio Martins. Então discursos, documentos manuscritos, jornais, coisas que pra nós tem muito valor afetivo”, explica Maria Paula.


A emoção desse momento histórico para a família Almeida ficou representada na fala de João Lincoln, também filho do casal, que se comoveu ao entregar, no dia do aniversário de sua mãe, Dona Márcia, algo tão precioso que pode influenciar futuras gerações, por apresentar um modelo de uma educação exitosa criado para as Escolas Caio Martins. Ele se recorda das palavras do pai que sempre dizia que era importante investir nas crianças, para não ter que punir os adultos. Essa frase é apenas uma representação de toda obra que o casal criou em prol das crianças mineiras pobres. “Eu sempre digo que se o modelo da Caio Martins fosse propagado e levado para mais locais, nos teriamos hoje um problema educacional e de segurança, que assola toda sociedade brasileira, bastante minimizado e bastante diminuido”, completa João.  

 

Uma outra presença simbólica também estava no local para participar desse momento de uma instituição que faz parte da sua história desde a infância. Gildázio Alves dos Santos, ex-aluno da FUCAM e o primeiro a chegar a presidência da instituição que completou 70 anos em 2018, se emocionou, ao ver em fotos e documentos, registros que o remeteram a sua infãncia em sua cidade natal Juvenília (MG), município que só surgiu porque, em 1953, Coronel Almeida e Dona Márcia criaram mais uma unidade das Escolas Caio Martins no extremo norte de Minas Gerais, já na divisa com o estado da Bahia. “Eu sou muito feliz e honrado, primeiro por ser o primeiro aluno beneficiado pela instituição duplamente, ao chegar na Presidência da FUCAM. Parte desse acervo também conta a minha história, ahistória da minha cidade. Estou emocionado ao ver as fotos das atividades da escola que estudei no seu início e sou muito honrado em participar dessa história”, conta o presidente da FUCAM. 

Respondendo atualmente pela superintendência do Arquivo Público Mineiro, Thiago Veloso Vitral foi o responsável por autorizar e acolher a doação do acervo da família Almeida. Para ele, receber esse material é muito importante para a instituição cultural, pois se trata de um trabalho nobre a quem o Estado, Minas Gerais e o Brasil devem muito no âmbito da educação e do respeito às crianças. “Esse acervo vai ser preservado para as novas gerações e vai influenciar pesquisas academicas, escolares, diretrizes educacionais”, explica o superintendente, que finaliza dizendo que a "história de uma instituição só perdura quando ela é preservada.”

 

 
A partir de agora o material passará por um processo de revisão, higienização, restauração, organização e digitalização, para depois receber acesso público. O processo de trabalho dos profissionais do Arquivo Público é minuncioso e requer muito cuidado no manuseio de fragmentos importantes da história de Minas Gerais. Assim que for disponibilizado, o público tomará conhecimento.


Texto e fotos: Michelle Parron